segunda-feira, 19 de março de 2012

O cristianismo e as religiões



Os discípulos foram enviados pelo próprio Cristo a anunciar o Evangelho a todas as pessoas do mundo. Isso quer dizer que a Boa Nova deve alcançar a todos que tenham ou não religião. Vale lembrar que o evangelho está para além das religiões. Há muitos séculos grande parte dos seres humanos pertence a alguma das grandes religiões mundiais. Será que a mensagem que Jesus solicitou que fosse levada chegou a esses povos? E mesmo que tenha chegado essa boa nova foi entendida? O que é de fato essa boa nova?

Observando a história das missões percebemos que não há mais a possibilidade de repetir o método que foi usado pelos missionários cristãos. A superioridade material ou cultural em relação ao diferente foi um erro terrível no anúncio do Evangelho. Essa postura mostra apenas uma relação de poder e não a relação de amor que é a proposta do Evangelho de Cristo.

O catolicismo tradicional pregou durante muito tempo que apenas se salvariam aqueles que pertencessem à Igreja Católica cumprindo toda a sua doutrina. Por outro lado os protestantes diziam que somente nos seus redutos a salvação se processaria. Os dois seguimentos colocam no inferno os que não aceitam a sua doutrina. Essa postura mostra apenas a arrogância que católicos e protestantes trazem nas suas estruturas quem visam salvar o mundo. É a altivez do poder em detrimento ao anúncio do Evangelho do serviço, do amor.

Muitos missionários no afã de salvar as pessoas do inferno eterno rezavam a cartilha de uma instituição que apenas queria e quer poder. Ao invés de representar Jesus de Nazaré representavam um sistema que está baseado no poder material construído ao logo da história pela cristandade. O fim de todo propósito era manter o poder. E poder cega as pessoas. Os poderosos não têm mais sensibilidade para com a alteridade. Se o poder da instituição é divino tudo é admitido e legalizado. O teólogo José Comblin dizia que “as pessoas podem ter uma consciência individual muito humilde e ser arrogantes no seu comportamento social. Em nome de Deus tudo é permitido, todos os abusos são legitimados”.  A história das religiões mostra que essa era a postura a ser tomada com o apoio dos impérios.

O encontro dos missionários com as religiões mostrou que o objetivo era fazer proselitismo e o meio mais comum era batizar os povos ditos pagãos. O importante era salvar as almas do inferno. O batismo sempre foi mais importante do que a evangelização proposta por Cristo e, o evangelizar era ensinar as doutrinas. Para os cristãos, até o século XX as outras religiões não tinham nada que prestasse, ou melhor, era coisa do demônio para atrapalhar o Reino de Deus, e muito menos elas poderiam ensinar alguma coisa aos cristãos. Sempre a superioridade/poder era o parâmetro para avaliar o pluralismo religioso.

A partir desse período a compreensão teológica, em linhas gerais, mudou em relação à salvação dos povos ditos pagãos. Passou-se a reconhecer que eles tinham algum valor e que poderiam fazer boas obras, mas que sua religião era errada e, portanto, deveriam deixá-la por conta de sua nova vida com Cristo. Os pagãos não eram mais passivos na salvação, mas deveriam negar tudo que existe na sua religião. Fica claro que a mudança foi muito tímida no que consiste o cerne do diálogo no pluralismo religioso. O enfraquecimento dos impérios forçou uma mudança de postura na forma de se fazer missões.

O cristianismo tem dificuldades de dialogar com outras religiões porque ele se achar superior. O cristianismo ainda não aprendeu a dialogar com as diversas vertentes que compõe o mundo cristão e muito menos com os que não são cristãos. Porque o diálogo mostra que os dois têm condições de aprender mutuamente. O problema é que o cristianismo pensa saber tudo sobre a vida e sobre Deus e dessa forma não tem nada a aprender com o diferente. Ao contrário do que muitos pensam, conhecer o diferente fortalece ainda mais o conhecimento de si mesmo. Portanto, a falta de conhecimento do que é Evangelizar leva a falta de diálogo com as religiões e, com isso, instala-se o uso do poder e da superioridade que gera ódio e má notícia ao invés do amor e Evangelização.

De que maneira podemos imaginar o relacionamento entre cada religião e a missão cristã? Cremos que ainda é possível Evangelizar sem excluir ou destruir as culturas e as religiões do mundo. Para isso é preciso o autoconhecimento. Os tempos hodiernos obrigam os cristãos a voltar sobre si mesmos para aprender e descobrir o que é o cristianismo e o que é a evangelização da humanidade. Evangelizar é anunciar a Boa Nova como algo que corrobora na religião e na cultura do outro que consiste na transformação do homem e da mulher em humanos.

Sabemos que os passos dados em direção ao diálogo e ao respeito ao diferente são ainda tímidos. Contudo, já se ouve vozes em prol dessa tarefa que não é fácil, mas necessária no processo de evangelização do mundo e, que precisam ser engrossadas as fileiras desse coral que canta a diversidade e o pluralismo como algo possível.
Fábio Porto

segunda-feira, 5 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher - Parabéns!

Mulher...

        Desde o século passado o dia 08 de março nos remete a uma reflexão sobre a mulher. Pela história da mulher na sociedade podemos afirmar que esse dia é um dia cheio de paradoxos. Por que ao mesmo tempo em que comemoramos a libertação da mulher do cativeiro sustentado pelos machistas, choramos por aquelas que deram suas vidas para que a mulher fosse respeitada e tivesse assegurada sua dignidade. O nosso pesar é por causa daquele dia fatídico no ano de 1857, em Nova York, onde aproximadamente 129 mulheres foram carbonizadas no interior de uma fábrica porque reclamaram da carga horária de 16 horas de trabalho.

        Louvamos a Deus pelas Marias, Anas, Joanas e todas que mostram com suas vidas que poderemos construir um mundo diferente, onde não haja discriminação, violência, ódio e tudo aquilo que descaracteriza o ser humano. Que o choro das mães seja apenas de alegria por segurarem em seus braços o fruto que foi gerado pelo amor. Mulher, mãe, irmã, amiga, namorada, esposa... Expressões do amor de Deus.

        Difícil é definir uma mulher em palavras, mas fácil é perceber seu valor diante da vida. Assim, as mulheres dignas de ontem vivem e viverão hoje e amanhã como mulheres de energia, de ideais, de influência, de execução, de capacidade e consagração. Deus abençoe cada uma.

“Uma mulher exemplar... Reveste-se de força e dignidade; Fala com sabedoria e ensina com amor”. Pv 31:1;25-26
Fábio Porto


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Nova Criatura


O apóstolo Paulo faz uma afirmação enfática na II carta que ele escreveu ao coríntios no capítulo 5,17: “assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é”. Os rabinos usavam a terminologia “nova criatura” para chamar aqueles que deixavam a idolatria e se convertiam ao judaísmo. O termo grego kainê ktisis (nova criatura) quer dizer que o cristão tem um novo fundamento. Ou seja, sua vida agora é construída nos princípios do Cristo de Deus.

Se o fundamento é em Jesus Cristo, então não poderemos criar confusão no que diz respeito à conduta do discípulo. Paulo ainda complementa o versículo postulando que as “coisas velhas já passaram; e eis que tudo se fez novo”. Portanto é imperativo uma mudança na vida daqueles que se encontram com Cristo. Amargura, desesperança, murmuração, falta de comunhão, desespero e outros comportamentos dessa natureza não fazem parte da vida dos discípulos e discípulas de Jesus. Não poderemos ser uma nova criatura e viver nos moldes das “coisas velhas”.

A nova criatura viverá baseada na graça estabelecida no amor de Deus. O discípulo não apenas terá gratidão ao Senhor por tudo o que Ele fez e tem feito em sua nova vida, mas se tornará graciosa para com o próximo.

Fábio Porto

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

E quando as luzes se apagam



Em geral nossas vidas entram em uma áurea festiva a partir do mês de novembro e vamos nesse embalo até as primeiras semanas depois do ano novo. São dias de muitas luzes e confraternizações. Momentos mágicos e encantadores. Solidários e filantrópicos. Reconciliações e promessas. Enfim, tempos que nos fazem acreditar que poderemos viver o ano todo nesse mesmo sentimento, ou nas palavras dos religiosos, “nesse mesmo espírito”.

No entanto, me vem um questionamento: depois das festas o que ficam em nossos corações? O que permeia nosso interior no momento em que desarrumamos a árvore de natal; quando guardamos as luzes que iluminaram nossas casas; quando arrumamos o lar depois de recepcionar os parentes e amigos? Como ficamos na vida emocional, psicológica, espiritual, social depois dos festejos?

As festas são incríveis, pois nos fazem relembrar fatos do passado que marcaram nossas vidas. Elas são importantes porque atualizam os acontecimentos do passado. Os momentos festivos são belos mas não são permanentes. Para algumas pessoas quando as luzes se apagam o que fica é a crise da fé, solidão, amargura, dor, tristeza, resignação e até mesmo uma indiferença para com o Deus.

Houve um período na história dos hebreus que as festas passavam e nada mudava em suas vidas. O exílio babilônico tirou a esperança dos israelitas. O longo tempo de sofrimento e o sentimento de abandono por parte de Deus machucaram as pessoas. As luzes se apagaram na vida do povo. As vicissitudes da vida podem nos fazer acreditar na ausência de Deus. Porém, uma voz surge no meio do povo lembrando-os que Deus poderia mudar o quadro. Para essa situação o profeta Isaías afirmou: Deus está aqui! Ele se deixa achar. Mesmo no exílio ele está perto. Deus pode mudar tudo!

Nos dias hodiernos muitas pessoas estão vivendo esse ciclo composto por opressão, resignação, falta de ânimo, indiferença, medo, culpa e etc. Ainda que nos momentos de festas são esquecidas essas dificuldades, logo voltam à rotina e à dura realidade. Algumas pessoas se refugiam na religião para minorar essa situação.

O profeta, diferente de muitos vendedores de ilusão em nome de um deus morto, lembra que quando nos sobrevém sofrimento, dor, perdas, lutos, a palavra nos diz que Deus está acima dessas coisas, e não diz que temos que dá o dízimo ou ser patrocinador ou participar de uma corrente de sete dias  para que a ira de Deus seja aplacada e a pessoa então irá prosperar.

O texto de Isaías 55 nos mostra que estamos errados quando dizemos a Deus o que ele tem que fazer. Feuerbach disse que a angústia da finitude humana criou Deus. Muitas vezes erradamente criamos Deus conforme nossos desejos. É o que podemos observar nos discursos de muitos líderes evangélicos. Quando as luzes apagarem na vida devemos procurar a ajuda de Deus, do Deus verdadeiro. Não do Deus criado pelas nossas projeções. Ele é YAHVEH e não um super-homem divinizado e criado por nós. Ele é o totalmente diferente, ele é o outro.

Nosso horizonte é limitado. Por isso precisamos de confiar em Deus. Nas  suas possibilidades. Com seus pensamentos, Deus está muito acima de nós, com sua palavra que age, no entanto, bem pertinho de nós. Dentro de nós. Ele é o Emanuel!

Muitas pessoas secas por falta de palavra de vida. Na boca do profeta a Palavra de Deus é mais que conselhos e orientações, ela nos faz compreender nossa experiência de vida. Em cristo Deus está bem perto de nós, nele Deus se deixa achar, nele Deus nos liberta. Quando as luzes apagam... busquem a Deus diz o profeta.

No século XIX com o avanço tecnológico, houve um esfriamento espiritual. Matamos Deus por não falar dEle. Porém, no século XXI matamos por falar demais e erradamente sobre um Deus do ódio, da indiferença, seletivo, distante... Não fique no cativeiro de uma religião fria e sem vida, onde a vida não é nada e o nada do dinheiro é tudo. Religião sem amor é maldição sacralizada.

Quando as luzes se apagarem em nossas vidas lembremos que há um Deus de amor por nós. Mesmo com a beleza e as cores do carnaval, a quarta-feira de cinzas chegará e deveremos está prontos para a vida que segue depois que as luzes se apagam.

Uma oração:
Deus esteja à tua frente para te mostrar o caminho certo; ao teu lado para te proteger; atrás de ti para te preservar da maldade das pessoas; abaixo de ti para te amparar quando caíres; dentro de ti para te consolar quando estiveres triste; contigo para te libertar da resignação e te animar para a esperança por um novo tempo. Amem!
Fábio Porto

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O olhar de Verissimo sobre o BBB

Gostaria muito de escrever sobre esse assunto, porém ao pensar na possibilidade fico com náuseas e desisto. Ainda bem que existem pessoas que conseguem falar sobre o BBB e não vomitar, pelo menos é o que acho. Então compartilho as palavras desse grande escritor e espero que possamos refletir e nos posicionarmos contra esse “zoológico humano divertido” que cria um mundo de ilusão e projeções na cabeça de muitas pessoas que são assistidas pelo BBB.  


Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros...todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE. 
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB . Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas. 
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade. 
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados. 
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo dia. 
Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, Ongs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados . 
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo. 
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$ $$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão. 
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores) 
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema...., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , ·visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade. (Luis Fernando Veríssimo - cronista e escritor brasileiro)