domingo, 17 de fevereiro de 2013

A igreja dos amigos de Jó



O drama de Jó tem muito a nos ensinar, pois a cada dia grassa nas igrejas o que chamamos de teologia da retribuição. Essa teologia tem suas bases no dualismo, onde forças diametralmente opostas estão mostrando o que cada uma tem de mais poderoso para vencer a guerra. Em outras palavras, Deus e o diabo se exibindo para mostrar quem é mais forte.

No livro de Jó temos alguns personagens que deixa claro qual a sua teologia. Deus coloca o amor como base da sua relação com Jó. Satanás faz o papel de acusador dizendo que ninguém ama a Deus se não receber nada em troca. Jó é aquele que vive com Deus e assume todas as coisas que lhe acontecem como sendo vindas de Deus. Os amigos de Jó acreditam que o mal vem por causa da vida de pecado de Jó.

Mesmo Deus testemunhando a favor de Jó, Satanás vem colocar em dúvida essa integridade tirando o foco do relacionamento gratuito de Deus com Jó e colocando os holofotes na categoria do poder. 

Os amigos de Jó não perceberam que o centro da guerra espiritual se dá na arena do conflito relacional e afetivo, e não na do poder. Eles se esqueceram de que Deus é todo poderoso e não há ninguém que possa disputar com Ele. Quando os amigos de Jó entram em cena para lembrar a lei da retribuição, eles não se deram conta de que estavam fazendo o mesmo jogo de Satanás. O alvo das acusações é o relacionamento de Deus com o ser humano.

Deus em resposta ao desafio proposto por Satanás aposta no poder do amor, do relacionamento que existe por causa do afeto e não por causa das bênçãos. Segundo Ricardo Barbosa “esse, por natureza, é um poder frágil, cuja força está em cativar o coração e obter deste uma resposta igualmente afetiva e amorosa”.

Na igreja dos amigos de Jó existe uma compreensão de guerra espiritual na perspectiva de duas forças que se digladiam buscando provar quem é o maior e o mais forte. No entanto, para Jó, é um conflito entre Deus que ama gratuitamente e incondicionalmente, e Satanás, que usa de recursos que tentam desestabilizar esse relacionamento na tentativa de impossibilitar esse amor.

Acredito que na maioria de nossas igrejas perdemos a percepção de Jó e passamos a lutar com as armas de Satanás quando abraçamos o dualismo e transformamos a guerra espiritual em uma disputa pelo poder. Na disputa pelo poder, seja ela qual for, Satanás sempre será o vitorioso.

Parece que o pensamento dos amigos de Jó a cada dia está se renovando e se reinventando nas pregações, nas músicas, nos relacionamentos interpessoais e nos projetos de crescimento de igrejas. Fica claro quando os amigos de Jó entram em cena, pois o argumento do poder é logo evocado.

Entretanto, essa teologia reforça o argumento de Satanás. Para eles, a lógica é simples: Deus abençoa o justo e pune o pecador. Se Jó está sofrendo, é porque pecou. Então ele deveria buscar a Deus para perdão dos seus pecados e restituição do que havia perdido. Fica evidente que nessa forma de ser igreja deveremos buscar a Deus não por causa de Deus, mas por causa de nós mesmos. Nós somos a razão da nossa fé e o objeto do nosso amor. 

Ainda bem que Jó não disse “o Senhor deu e Satanás tomou, agora devo amarrar e reivindicar o que me foi tirado”, pelo contrario em meio ao caos disse “o Senhor deu, o Senhor tomou, bendito seja o nome do Senhor”.

Na igreja dos amigos de Jó não há espaço para o silêncio de Deus. No drama de Jó o silêncio de Deus não era o da indiferença, mas o da oração e da intercessão. Da mesma forma que Jesus disse que iria orar por Pedro quando Satanás disse que queria peneirá-lo (Lc 22. 31-32). O silêncio é quebrado quando respondemos que nosso coração continua sendo de Deus independente das circunstâncias.

A confirmação do amor que temos por Deus é a resposta final de toda batalha espiritual. Os amigos de Jó precisam se lembrar de que luta espiritual não se trata de disputa pelo poder entre o bem e o mal (maniqueísmo). Essa luta já fora vencida por Jesus quando ele disse: “é me dado todo poder no céu e na terra”. A razão da guerra espiritual é demonstrar a quem nosso coração pertence.

Que não percamos de vista o verdadeiro sentido da luta espiritual que é o de nos transformar, transformar nossos conceitos, valores e teologia que tentam enquadrar Deus nos esquemas malignos do poder. Nossa vocação é para subir ao calvário, para sofrer todas as implicações do amor e do serviço e não deixar que as insinuações do maligno nos desviem na caminhada de implantação do Reino de Deus.

Sendo assim, permaneceremos sempre do lado de quem é e sempre será o vencedor, Jesus o Cristo de Deus.

Fábio Porto

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Discurso de Formatura

Depois de 4 anos bateu a nostalgia misturada com a saudade. Ao participar semana passada de mais uma formatura no STBNe, descobrir que sair do seminário em 2008, mas o seminário não saiu mais de mim. Gostaria de compartilhar meu discurso de formatura que tive o prazer de ser o orador e representar essa turma fantástica. Um xero no S2
 
 
Feira de Santana – 26 de julho de 2008. STBNe – Discurso de Formatura. Turma 2008.1

Magnífico Reitor Dr. Ágabo Borges; Ilustríssima paraninfa da turma professora Erika Marques; Ilustríssimo professor homenageado Mestre Antonio Monteiro; Ilustríssimos professores e professoras do curso de Teologia; funcionários e funcionárias desta casa; familiares; amigos e amigas; igrejas aqui representadas; pastores e pastoras presentes, queridas e queridos colegas, BOM DIA!

Gostaria de agradecer aos meus colegas de turma que me escolheram para representá-los nesse momento tão sublime de nossas vidas. Colegas, por melhor que seja o discurso ele deixa lacunas. Sendo assim, tentarei contemplar nessa alocução os sentimentos da turma mesmo sabendo que toda preleção não tem condições de abarcar tudo, pois cada pessoa tem sua história, subjetividade e, portanto, compreende o mundo a partir de suas experiências. Mesmo convivendo por esses “longos” quatro anos e meio, tivemos experiências que somente cada um pôde apreciar. Procurarei tocar nos pontos comuns aos formandos.

Sei que o momento é aguardado com muita expectativa por parte dos ouvintes. Muitos esperam ouvir um discurso eloquente e intelectualizado, embora não tenha preparado nada formal para a ocasião, pois prefiro fazer desse momento um tempo de rememorar nossas experiências acadêmicas e comunitárias. Que por sinal não foram poucas! Até porque não encontrei motivos suficientes para fazer de outra forma. O seminário foi o lugar onde aprendemos que somos gente, seres humanos normais que devem buscar a cada dia melhorar essa condição. O seminário também nos ajudou a conhecer o outro e a nós mesmos com maestria. Meus amigos e irmãos, a busca por esse conhecimento deve continuar ao sairmos pelo portão do seminário.

O instante ao qual chegamos nesta hora é decisivo. Diante de nossos olhos são edificados alguns dos pilares-base de nossas vidas. O passado e o futuro se reúnem para trazer à memória momentos pontuais e significativos bem como para nos conduzir à projeção do que nos espera. Em fevereiro de 2004 essas pessoas maravilhosas que hoje concluem seus compromissos com o STBNe, (exceto nosso querido Djalma que vem lutando há mais tempo que os outros), deram início à execução de seus sonhos. O chamado de Deus para cumprir mais uma etapa de nossas vidas estava apenas começando. Nossa caminhada em nossas respectivas igrejas estava chegando ao fim e, a jornada seminarial descortinando os seus horizontes.

Bem, gente! O primeiro ano no seminário é muito interessante. Tudo é uma festa. Chegamos aqui sabendo de tudo. Têm até aqueles que acham que só precisam do diploma, queremos ensinar os professores a darem suas aulas. Afinal de contas nos destacamos em nossas comunidades como conhecedores da Bíblia e como bons pregadores (COISA DE CALOURO). Contudo, no decorrer dos dias vamos percebendo que o nosso conhecimento não é definitivo, resultando assim na chamada crise, que a partir de então se tornaria a palavra de ordem. No segundo ano voltamos desertados e agora o que queremos é nos afirmar como veteranos e sustentar a nossa imagem à custa dos calouros. Pensamos em mudar o mundo com nossas ideias o mais rápido possível! O terceiro ano é o momento de questionar a tudo e a todos. O rosto de cada seminarista se parece com uma interrogação. É também nesse tempo que aprendemos que nos ensinam a criticar e depois somos criticados por criticar. Contudo, a partir do quarto ano, o cenário vai mudando, parece que a ficha caiu e descobrimos que não viveríamos apenas de perguntas, mas sim também de respostas, pois seremos cobrados! Parece que quando chegamos ao final a nossa preocupação maior está no campo da geografia, aquelas coisas de lugar e espaço... (para onde vou). Finalmente estamos aqui, diferentes de como chegamos, pelo menos é o que esperamos. Esses anos serviram para nos aperfeiçoar; sermos mais tolerantes, amáveis, compreensivos, prestativos aos nossos semelhantes. Sem dúvida alguma a vivencia seminarial deixou marcas indeléveis em nossas vidas.

Nessa caminhada Deus nos presenteou com pessoas maravilhosas, que diante de todas as dificuldades que lhes são impostas, souberam doar-se para que nós pudéssemos desenvolver nossa capacidade de aprendizado. Nossos professores e mestres, cada um com suas peculiaridades, nos mostraram como proceder diante dos desafios acadêmicos. O contato com o universo teológico gerou em nós o fenômeno do “Numinoso”, bem elaborado por Rudolf Otto, ao mesmo tempo em que nos encantava nos amedrontava pela vastidão de conhecimento. A vivência com nossos mestres nos provaram que a teologia não é engessada, não é fria, não possui apenas uma via, portanto, existem várias possibilidades de se fazer uma teologia relevante para as Igrejas e consequentemente para a humanidade. Por fim, aprendemos como lidar com as pessoas, tratá-las como sujeitos de sua construção histórica, ouvir e entender seus dilemas e limitações.

Para toda essa formação, contamos com excelentes professores e professoras que pediram mais quando achávamos que não tínhamos mais nada a oferecer; que fomentaram discussões; que nos encaminhou pelo extraordinário mundo das Escrituras Sagradas; que por vezes nos lançaram em profundas crises existenciais. Somos eternamente gratos aos nossos mestres pela grande contribuição de nos levar a uma vida menos escura, despertando em nós dúvidas e inquietações que nos levantam novas probabilidades e desafios.

Concluída essa etapa seminarial temos diante de nós o mundo, a comunidade e/ou o campo missionário, onde deveremos realizar uma práxis cristã engajada na vida concreta. Até porque as ferramentas para a execução desta tarefa já nos foi entregue durante o período de estudo acadêmico. Vale lembrar que para exercermos nossos ministérios não deverá existir antagonismo entre a teologia e a atividade pastoral. Porque nem todo teólogo é pastor, mas todo pastor deve ser teólogo.

É na elaboração teológica que deveremos criar condições de mudanças do status quo na comunidade em que estivermos servindo. Saber olhar a realidade é um desafio para cada um de nós. Depois de analisar essa realidade devemos viver a ética cristã, pois como diz o sociólogo francês Edgar Morin: “Todo olhar sobre a ética deve perceber que o ato moral é um ato individual de religação; religação com um outro, religação com uma comunidade, religação com uma sociedade e, no limite, religação com a espécie humana.” Eu acrescento aqui a religação com Deus.

O sucesso do nosso ministério dependerá de como nos comportaremos frente à dura realidade que cerca a maioria das pessoas. E por falar em sucesso, não deveremos nos esquecer de que a maior glória para uma pessoa é ela se parecer com Cristo. Vale ressaltar que um ministério bem sucedido nunca será sinônimo de um carro novo, bom salário, fama, poder, Igreja superlotada, dentre outra coisas, mas sim, de uma vida de serviço ao próximo pautada no amor de Deus.  Serviço ao outro só se faz com o outro. É conhecendo a alteridade e sua história que desempenharemos o nosso papel de discípulos e discípulas de Cristo. É no caminho que vemos e sentimos as necessidades das pessoas. É na beira do caminho que estão caídas as pessoas assaltadas pelas injustiças da vida. Para entender o ser humano, o “ser-aí”, o filosofo alemão Heidegger precisou decompor o cotidiano e apertar a mão do camponês da Floresta Negra.

Deveremos dar nossa contribuição para que aconteça a humanização do humano, como sugere o mestre Marcos Monteiro. A Igreja precisa de pastores e pastoras sensíveis às necessidades integrais das pessoas, que compreendam como escreveu Drummond a respeito do grande Albert Schweitzer, que “não é bastante ouvir Bach, para elevar o espírito. Não é bastante estudar filosofia, para compreender a vida. Nem é bastante o diploma de Medicina, para cuidar dos doentes... pois é preciso colocar a música, a filosofia e a medicina na mala e partir para onde o caboclo, o índio, o pária vivem sua morte à espera da morte definitiva, e viver e morrer com eles”. Ou seja, o nosso desafio é que estejamos prontos para colocar a teologia na mala (como bagagem necessária) e entrar na vida concreta das comunidades. Participar de suas dores e lutas; comemorar suas vitórias e conquistas... rir e chorar com (e como) pessoa de verdade.

Como nossa meta é se parecer com o mestre Jesus, não poderemos nos calar diante das injustiças e descasos para com o oprimido. Não hesitaremos em apresentar o Evangelho de Cristo onde as pessoas têm sua dignidade roubada (também seu dinheiro) por pseudocrístãos que vendem a Palavra de Deus fazendo do outro uma mercadoria e do sagrado um objeto de consumo. Não é possível que o choro de uma criança vítima da pobreza, o odor de corpos mutilados, o som de barrigas roncando, as lágrimas que rolam na face de uma mãe que perdeu seu filho na violência cotidiana, e muitos outros descalabros sejam situações normais para uma sociedade. Não pode ser! Jesus nos mostrou que não. Concordamos com o pensamento do Dr. Benedito Bezerra quando ele diz: “Um dos grandes desafios nesse mundo, é o de manter-se fiel à vocação recebida. O objetivo de todo líder evangélico deverá ser, ao final de seu ministério pessoal, poder olhar para trás e dizer: combati o bom combate, cheguei ao final de minha carreira, guardei a fé” (2 Tm 4.7).

Sei que apenas estamos começando, mas é importante mantermos os olhos fixos em nosso ministério, em nossa vocação, ao tempo em que conseguimos obter uma visão ampla da realidade ao nosso redor: eis o desafio que se impõe não só aos presentes formandos, mas a todo líder evangélico. Acreditando que a Igreja cristã tem um papel fundamental na construção de um novo mundo, onde todos sejam respeitados e tenham o direito de viver com dignidade. Essa mudança terá como base a ética cristã. Cristo é o modelo e único formador para um mundo com possibilidade de vida plena. Para o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, “a igreja não é uma comunidade religiosa de admiradores de Cristo, mas o Cristo que tomou forma entre os seres humanos.” O não reconhecimento dessa premissa leva a inúmeros erros e consequentemente a injustiças que são praticadas contra as pessoas.

 Amados irmãos e irmãs, qual será a nossa base para vencer esses desafios? A única resposta plausível que se encontra é em Jesus Cristo. Apenas vivendo a esperança do estabelecimento do Reino de Deus entre nós. Viver como o grande pastor Martin Luther King Jr que dizia: I have a dream – eu tenho um sonho. Sonho de um mundo onde não haja desigualdades e nem discriminação. É sonhar com um Brasil livre das mazelas que tanto lhe adoece. É na utopia, o não lugar, que encontraremos a força para prosseguir sempre em frente, ou como diz o apóstolo Paulo: “prosseguir para o alvo”. É fazendo da vida uma poesia, ainda que muitas vezes com lágrimas, mas nunca perdendo a ternura. “Não deixar-se vencer do mal, mas vencer o mal pelo bem”.

Gostaria de concluir esse momento lhe convidando a pensar em uma parte da bela poesia escrita pelo extraordinário teólogo, Rev. João Dias de Araújo, que colocou sua mão no arado e jamais olhou para trás:

 

Que estou fazendo se sou cristão? Se cristo deu-me total perdão?

Há muitos pobres sem lar, sem pão. Há muitas vidas sem salvação.

Meu Cristo veio pra nos remir: o homem todo sem dividir.

Não só a alma do mal salvar, também o corpo ressuscitar.

Que estou fazendo se sou cristão?

 
Muito obrigado!

Fábio Porto

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

 
 
Mulher bela,
Epiderme cor de canela.
Sorriso lindo,
Estrelas iluminando e colorindo...

Ao emergir das águas,
Seu corpo cintilante,
ofuscando tudo ao seu redor.

A lua radiante,
e o sol no seu esplendor,
não podem ofuscar a musa, menina, mulher...
e o nosso amor.

Gatinha, amiga, mulher.
Leveza, simpatia.
O crepúsculo e o arrebol,
Se inspiram na beleza do seu farol.

Feliz aniversário My Queen

Fábio Porto

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Profeta nordestino: de sandália de couro e Bíblia na mão.

Feliz Aniversário Marcos Monteiro.
 
Profeta nordestino: de sandália de couro e Bíblia na mão.

Fiquei extremamente feliz e lisonjeado em participar desse momento de homenagens a esse que é simplesmente: Marcos Monteiro. O que falar de uma pessoa que ao meu ponto de vista encontrou o caminho proposto por Jesus, o Cristo de Deus. Esse camarada escreve bem, fala bem, é inteligente, solidário, teólogo, filósofo, discípulo, pensador e acima de tudo, um amigo, que nos ensina através do contexto da amizade que deveremos ser garimpeiros da humanidade no humano.

Difícil é falar desse nordestino sexagenário, porém vou arriscar algumas palavras que tentam dizer de Marcos Monteiro e da parte de minha vida onde ele ajudou a resignificar, construir, destruir, crescer, diminuir, chorar, sorrir, morrer, viver... Enfim, ele faz parte de uma das melhores fases da minha existência.

Sempre em minha caminhada cristã tive dificuldades de entender a vontade de Deus. As religiões sempre tentam decodificar essa vontade àqueles que são os seus adeptos. Entre idas e vindas na vida cristã chego em 2004 ao Seminário Teológico Batista do Nordeste, STBNe em Feira de Santana.

Em meio ao emaranhado de sonhos, medos, incertezas e perspectivas para essa nova etapa de minha vida, incluindo o cumprimento e/ou o aprendizado da vocação, conheço um pastor, filósofo, amigo, enigmático com sua sandália de couro e uma perspectiva utópica (no sentido de não lugar) do Reino de Deus. Onde o mais precioso dos valores humanos, uma vida de e com dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo, faça parte dos nossos relacionamentos. Uma ambiência onde os participantes não são nem concorrentes nem objetos de uso e de consumo, mas irmãos e irmãs engajados na tarefa perene de construir vidas compartilhadas.  

Há algum tempo pensava que minhas dúvidas e questionamentos seriam resolvidos ao pisar o terreno daquela instituição. No entanto, e não sei ainda o porquê, fui parar em uma lecção onde Marcos Monteiro estava falando sobre o Outro do Outro do Outro. Pronto! A partir daquele momento meus dias de paz teológica acabaram. Pois ao invés de respostas, que em muitos casos são insuficientes, fui levado por um desses Outro, onde com todo respeito aos defensores da sistemática incluí Marcos, ao mundo fantástico das perguntas. Se não bastasse pensar no Outro incomensurável, no Outro incompreendido e no Outro complexo, ainda me aparece um ‘outro’ (Marcos Monteiro) nos convocando à difícil, mas apaixonante, tarefa de pensar nesses Outros a fim de que encontremos a melhor maneira de Outrar, viver a alteridade.

Na sala de aula, no Portal da Vida, nos congressos, nas lecções, nos debates, nos momentos comensais (onde aprendi que existe também uma teologia da cozinha), na comunidade de Jesus, dentre outros ambientes, descobri que esse não lugar que tanto queimava meu coração se tornara uma realidade. Viver um Evangelho encarnado faz parte da práxis desse homem. Sua lucidez é incrível. Em uma das suas falas no seminário sobre pastoral urbana ele disse que temos muitas coisas para fazer na construção de um mundo mais justo, igual, fraterno e solidário, e que não deveríamos pegar seus questionamentos sobre o uso da gravata e seus significados por exemplos, e fazer desse assunto um foco onde gastaríamos muita energia, pois essa era uma dificuldade sua e que nós deveremos buscar o caminho que desse sentido a nossa vocação. Lembrando Raul Seixas: "passei a vida inteira brigando com os galhos, quando na verdade o problema estava no tronco".

Certo dia ao perguntar a Marcos se a explicação de um querido professor do STBNe, que também tinha ouvido a mensagem o Outro do Outro do Outro, estava correta, ele me disse que gostaria que esse professor fosse explicar pra ele também, pois nem ele tinha entendido direito. O momento hilário serviu para me mostrar que o aprendizado se dá no caminho. A sabedoria está no fato de aprender sempre, mesmo que se aprenda o que se sabe e assim partir para um novo aprendizado.

Agradeço ao Pai por nos proporcionar vivências com pessoas comprometidas com a vida e com o sentido que ela deve ter no processo de superação das vicissitudes humanas. Marcos Monteiro é uma dessas pessoas iluminadas que habitam esse mundo complexo. Só uma coisa no meu convívio com Marcos me deixou triste, porém desafiado, ele me disse que não tenho mais o direito de morrer de qualquer jeito, pois quem conheceu José Comblin e a sua teologia da enxada pessoalmente, participou de retiros e congressos, deverá ser, no mínimo, assassinado pelos opositores da vida. Oxalá que não seja uma profecia!

Sigo meu caminho, algumas vezes como um jumentinho na avenida, outras como Paranísio da Vila Maravila com seu incurável otimismo sonhando com o dia em que o AGÁ seja acrescentado e tenhamos a Vila Maravilha socialista de vergonha. No entanto, nessa parte da minha vida chamada Marcos Monteiro, aprendi a sonhar e a caminhar na direção da construção de um mundo onde a ética e os valores do Reino de Deus apresentados no Sermão do Monte sejam uma realidade.

Que o Pai continue a abençoar esse profeta nordestino, de sandália de couro e Bíblia na mão, às vezes incompreendido, outras vezes compreensível, e em todas elas amável.

 Fábio Porto

sábado, 29 de setembro de 2012

Primavera

Cecília Meireles
 
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.